Primeiro de julho – Dia da vacina BCG

O Dia da Vacina BCG contra a tuberculose é comemorado hoje, primeiro de julho, e no ano de 2021, mais precisamente no dia 18 de julho, completam exatos cem anos da primeira utilização dessa vacina em seres humanos.

Mais precisamente, a sigla BCG significa “Bacilo Calmette-Guérin” e remete aos sobrenomes dos dois pesquisadores franceses que desenvolveram essa vacina, Albert Calmette e Camille Guérin.

Infelizmente, não foi possível identificar se houve uma patente para a primeira versão dessa vacina, mas certamente vale a pena compartilhar um pouco da sua história.

Para contextualizar o cenário histórico, há uma estimativa de que a tuberculose tenha sido responsável pela morte de aproximadamente 1 bilhão de pessoas entre 1700 e 1900. Foi então, no início do século 20, que os pesquisadores franceses Albert Calmette e Camille Guérin começaram a desenvolver uma vacina antituberculose no Instituto Pasteur em Lille.

Em meio aos estudos e testes realizados, eles decidiram acrescentar bile bovina na cultura e, surpreendentemente, observaram que houve uma redução na virulência da bactéria causadora da tuberculose. Esse foi o detalhe que os animou a seguirem com um projeto de longo prazo para a produção da vacina. A partir daí, seguiram com o desenvolvimento por mais de uma década buscando melhorias no projeto, usando cepas bovinas do bacilo da doença, bem como diferentes culturas compostas por ingredientes como bile, glicerina e batata.

Mais tarde, os testes foram interrompidos algumas vezes durante a Primeira Guerra Mundial. Calmette e Guérin continuaram o desenvolvimento, com muitas difucldades, principalmente em função da escassez de insumos durante a guerra, e tiveram que contar inclusive com o apoio de veterinários da força de ocupação alemã para o fornecimento de matéria prima derivada de bois.

No ano de 1919, depois de aproximadamente 230 subculturas realizadas ao longo dos 11 anos anteriores, eles chegaram a um bacilo da tuberculose que inviabilizava a progressão da doença quando injetado em cobaias como coelhos, gado ou cavalos. Foi aí que resolveram batizar o produto obtido como “Bacille Bilie Calmette-Guerin”. Pouco depois, a palavra “Bilie” (que significa “que contém bile”) foi omitida e assim nasceu a BCG.

Em 1921, foi decidido que já era hora de um teste da vacina em seres humanos. A primeira administração humana de BCG foi feita por Benjamin Weill-Halle assistido por Raymond Turpin no Hospital Charité, Paris. Uma mulher havia morrido de tuberculose poucas horas depois de dar à luz um bebê saudável e no dia 18 de julho de 1921, Weill-Halle e Turpin administraram uma dose de BCG por via oral ao bebê. Felizmente, não houve efeitos colaterais indesejados. Vale lembrar que a BCG é aquela que, atualmente, é aplicada por via intradérmica deixando uma marca no braço, mas na época a via oral foi escolhida por entenderem que o trato gastrointestinal seria a via usual de infecção natural pelo bacilo da tuberculose.

A famosa marquinha do braço

De todo modo, Weill-Halle tentou ainda as vias subcutânea e cutânea em outros bebês, mas as reações foram contestadas pelos pais, e o método oral foi continuado. O Instituto Pasteur de Lille iniciou a produção em massa da vacina BCG para uso médico e entre os anos de 1924 e 1928, estima-se que um total aproximado de 114 mil crianças vacinadas sem maiores complicações. Em 1928, os experimentos da BCG em animais foram suspensos e em 1931, foi aberto um laboratório especial em Paris comandado por Guerin para a preparação de BCG.

A imunização com a BCG, portanto, havia demonstrado ser segura e as estatísticas da época revelavam uma queda expressiva na mortalidade por tuberculose entre os bebês suscetíveis que haviam sido vacinados. A partir daí, a vacinação pela BCG também estava sendo realizada fora da França, e administração cutânea passou a ser adotada, particularmente na cidade de Oslo.

Por outro lado, na Inglaterra e nos Estados Unidos ainda havia um certo ceticismo a respeito da BCG, com críticas às estatísticas de Calmette e Guerin e relatos isolados envolvendo o uso de bacilos mais virulentos de tuberculose, lançando dúvidas sobre a afirmação de Calmette de que o BCG era um “vírus estável”. Apesar desses relatos, Calmette e Guerin se mantiveram confiantes da segurança da BCG, até o chamado “desastre de Lübeck“.

No ano de 1930, na cidade alemã de Lübeck, foi criado um esquema para vacinar bebês recém-nascidos no Hospital Geral de Lübeck. A BCG foi fornecida pelo Instituto Pasteur de Paris, mas preparada para administração no laboratório de tuberculose em Lübeck e foi utilizada a via oral. Depois de quatro a seis semanas da vacinação, diversas crianças desenvolveram tuberculose e dentre os 250 vacinados, houve 73 óbitos. Outras 135 crianças foram infectadas, mas se recuperaram. Após quase dois anos de investigações, concluiu-se que a causa da tragédia teria sido uma contaminação da vacina por bacilos virulentos da tuberculose já nos laboratórios de Lübeck.

À medida que a notícia do desastre de Lübeck se espalhou pelo mundo, Calmette e Guérin foram duramente criticados e ficaram sob grande pressão e apesar das constantes defesas e do relatório do inquérito alemão ter isentado a BCG de culpa pelo ocorrido, a confiança na vacina havia sido minada.

Ao final dos anos 40, novos estudos voltavam a confirmar a eficácia do BCG contra a tuberculose, quando a doença tinha se tornado uma problema após a Segunda Guerra Mundial, de modo que o uso do imunizante foi incentivado, particularmente pela UNICEF e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ambas criadas em 1946. As campanhas se espalharam para os países em desenvolvimento na década seguinte.

Havia ainda algumas divergências quanto aos procedimentos e cepas a serem adotados, mas a maioria do mundo seguiu um esquema de vacinação de rotina em momentos variados (por exemplo, nascimento, início e fim da vida escolar), enquanto a Holanda e os Estados Unidos foram contrários ao uso dessa rotina da BCG e basearam as suas estratégias mediante rastreamento de contato e uso da vacina na identificação de indivíduos para terapia preventiva.

Atualmente, existem várias versões da vacina da BCG no mundo. No Brasil, é usada a cepa BCG Moreau RDJ (propriedade da Fundação Ataulpho de Paiva) certificada pela OMS, que costuma ser aplicada poucos dias após o nascimento.

Embora ainda existam alguma controvérsias a seu respeito, a BCG é a única vacina liberada para a prevenção da tuberculose em seres humanos, sendo reconhecidamente eficaz contra as formas mais graves de doença, de modo a evitar a morte de bilhões de pessoas.

Certamente os pesquisadores seguirão aperfeiçoando a tecnologia por trás da BCG e de outras vacinas, pois é esse o objetivo da ciência, sem verdades absolutas e muitas perguntas a serem respondidas. Por ora, celebremos os 100 anos desse marco na história da medicina.

Fonte das imagens usadas

https://www.wikiwand.com/en/BCG_vaccine

https://mundoeducacao.uol.com.br/biologia/vacina-bcg.htm

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1369848605000750

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